Levantamento internacional aponta queda nos níveis de movimento entre pessoas de 18 a 24 anos e associa rotina sedentária a impactos no bem-estar físico e mental

60% dos brasileiros não bate meta de atividade física semanal da OMS, diz estudo
60% dos brasileiros não bate meta de atividade física semanal da OMS, diz estudo · Imagem: Source: revistagalileu.globo.com

57% dos jovens entre 18 e 24 anos praticam menos de 150 minutos semanais de atividade física moderada — Foto: Greg Rosenke/Unsplash

60% dos brasileiros não bate meta de atividade física semanal da OMS, diz estudo
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Seis em cada dez brasileiros não fazem os 150 minutos semanais de atividade física recomendados pela OMS. Ao todo, 59% da população nacional, está abaixo desse patamar e 35% fazem menos de 30 minutos de atividade por semana. O Brasil aparece como o terceiro país com a maior taxa de adultos nessa faixa entre os 31 países analisados.

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Das 16 horas em média que passam acordados, os brasileiros estimam ficar 88% do tempo praticamente sem se movimentar - algo em torno de 14 horas por dia. Mais da metade, 53%, afirma que conseguiria ficar três dias ou mais sem sair de casa. Entre os jovens de 18 a 24 anos, esse percentual sobe para 60%.

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A pesquisa da ASICS apontam que a vida digital facilitou essa dependência menor do movimento. 41% dos brasileiros realizam regularmente tarefas e compras on-line. 61% costumam socializar por telefone ou vídeo no lugar de encontros presenciais.

O professor David Raichlen, da Universidade do Sul da Califórnia, concorda com a ideia de que a conveniência incorporada à vida moderna reduziu a necessidade de deslocamento. “Construímos um mundo que torna o movimento opcional. Conseguimos trabalhar, fazer compras, socializar nos entreter sem realmente nos movimentar – e, embora isso seja conveniente, nosso corpo e nossa mente ainda dependem de movimento regular para se manterem saudáveis”, escreve, no estudo.

Uma rotina cada vez mais parada

Mais da metade das pessoas de 18 a 24 anos não atinge a quantidade de atividade física recomendada pela OMS (Organização Mundial da Saúde): 57% estão abaixo dos 150 minutos semanais de atividade moderada. É o pior resultado entre as faixas etárias analisadas pelo Relatório de Preservação do Movimento, encomendado pela marca esportiva ASICS com 34 mil participantes de 31 países, realizado em julho de 2026.

O cenário identificado chama atenção justamente porque a falta de movimento entre os jovens aparece acompanhada por uma rotina cada vez mais marcada pela permanência em casa e pelo uso de telas. Vale lembrar que a recomendação de atividade da OMS considera não apenas exercícios esportivos, mas qualquer movimento corporal que aumente o gasto de energia.

Caminhar, pedalar, praticar esportes e fazer deslocamentos ativos são alguns exemplos. A organização ressalta ainda que qualquer quantidade de atividade física é melhor do que nenhuma e que, para a saúde, também é importante limitar períodos prolongados de comportamento sedentário.

Entre os participantes de 18 a 24 anos, 46% afirmaram passar longos períodos deitados enquanto assistem a conteúdos ou navegam no celular. Outros 39% disseram permanecer por muito tempo na cama usando o aparelho, e 30% relataram passar a noite inteira sem sair do lugar.

O comportamento está inserido em uma mudança mais ampla na maneira como as atividades cotidianas são realizadas. Smartphones, redes sociais, compras on-line e trabalho remoto estão entre os fatores que mais alteraram a forma como as pessoas se movimentam. Ao mesmo tempo, 64% dos entrevistados consideram fácil passar um dia inteiro quase sem se movimentar.

Essa transformação também aparece de forma particularmente intensa entre os mais jovens. O relatório aponta que 41% dos entrevistados de 18 a 24 anos costumam recorrer à inteligência artificial para realizar tarefas que antes fariam sozinhos. O índice é quatro vezes maior do que entre os adultos mais velhos pesquisados.

Movimento e bem-estar

A redução da atividade física não se manifesta apenas na quantidade de tempo dedicado ao movimento. No levantamento, 92% dos jovens de 18 a 24 anos relataram pelo menos um impacto negativo que associam à falta de movimento. Entre as queixas mais comuns estão redução da motivação e baixo humor, mencionadas por 40% dos participantes, além de letargia, citada por 38%.

O relatório encontrou uma associação semelhante quando analisou toda a população pesquisada: quanto maior o nível de movimento, maior foi a pontuação média atribuída ao chamado “Estado Mental”, uma medida criada pelo estudo a partir de indicadores como energia, foco, confiança, equilíbrio e capacidade de lidar com o estresse.

Os autores ressalvam, porém, que esses resultados mostram uma associação, e não permitem concluir que a falta de atividade física seja, sozinha, a causa dos impactos relatados. A relação entre movimento e saúde também é destacada pela própria OMS.

Em seu site, a organização reitera que a inatividade física está entre os principais fatores de risco para doenças não transmissíveis. Pessoas insuficientemente ativas apresentam risco de morte entre 20% e 30% maior do que aquelas que atingem níveis suficientes de atividade física.

Não basta apenas fazer exercício

Alcançar os 150 minutos semanais não significa necessariamente que o restante do dia seja ativo. Entre os adultos que atingiam a recomendação, aqueles que passavam mais de dez horas por dia diante de telas apresentaram pontuação média de Estado Mental de 66 em 100. Entre os que permaneciam de uma a duas horas nas telas, a média foi 74.

O professor Brendon Stubbs, do King's College London e da Universidade de Viena (Áustria), chama atenção justamente para essa combinação entre exercício e sedentarismo. Também no estudo ele indica que “não é só o total semanal que importa – é a forma como o dia inteiro se organiza”.

A distinção é relevante porque o relatório considera como atividade moderada o movimento sustentado capaz de elevar a frequência cardíaca. Caminhar até o mercado, realizar tarefas domésticas ou se deslocar durante o dia também são formas de movimento, mas podem não ser suficientes, isoladamente, para atingir os 150 minutos semanais da recomendação.

Tendência pode continuar até 2035

Os resultados também levantam uma preocupação para os próximos anos. Mantidas as tendências observadas na pesquisa, o relatório estima que a parcela de adultos classificada como “Ativa” pode cair de 47% em 2026 para 44% em 2035. Nesse cenário, 2,3 bilhões de adultos dos 31 países analisados estariam abaixo da recomendação semanal.

Trata-se de uma projeção baseada no comportamento observado no estudo, e não de uma previsão. Para chegar ao resultado, os pesquisadores compararam os níveis atuais de atividade com os relatados pelos participantes para períodos anteriores e projetaram a tendência até 2035.

A própria metodologia traz outra limitação: os níveis de atividade foram informados pelos participantes. De acordo com o relatório, pesquisas desse tipo costumam levar à superestimar a prática de exercícios, de modo que os níveis reais podem ser menores do que os declarados.

Como dar o primeiro passo

Apesar do quadro, o relatório não aponta apenas para a queda dos níveis de movimento. Os dados também sugerem que mudanças pequenas podem estar associadas a diferenças no bem-estar.

Entre os adultos que disseram não ter feito nenhuma atividade na semana anterior, a pontuação média de Estado Mental foi de 57 em 100. Entre aqueles que fizeram alguma atividade, ainda que abaixo da recomendação, chegou a 66. Para os que alcançaram os 150 minutos semanais, foi de 71.

É nesse ponto que Stubbs vê espaço para mudança. “Quinze minutos de movimento diário podem mudar como as pessoas se sentem, e praticamente qualquer um consegue encontrar quinze minutos”, conclui o pesquisador.

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