Uma pessoa com obesidade repete o prato. Come uma sobremesa. Ou abre a geladeira pouco tempo depois de uma refeição. Para quem observa de fora, muitas vezes a conclusão vem rápido: “é compulsão”.Mas será?Durante muitos anos convivendo com a obesidade, ouvi justamente o contrário: “Nossa, eu não entendo como você é gorda. Você nem come o tempo todo. Você nem come tanto.”A frase, que poderia parecer um elogio, carregava uma pergunta implícita: se você tem obesidade, onde está toda a comida que imaginamos que uma pessoa com obesidade deveria comer?Eu nunca fui diagnosticada com Transtorno de Compulsão Alimentar (TCA). Ainda assim, como acontece com tantas pessoas que vivem com obesidade, meu corpo parecia suficiente para que os outros tirassem conclusões sobre a minha relação com a comida.Hoje, depois de passar por uma cirurgia bariátrica e de estudar e escrever sobre obesidade, percebo como essa associação continua presente. Obesidade e compulsão alimentar são frequentemente tratadas como se fossem quase sinônimos.Não são.A obesidade é uma doença crônica, complexa e multifatorial. Já o Transtorno de Compulsão Alimentar é um transtorno alimentar definido por episódios recorrentes de compulsão. Uma pessoa pode ter obesidade sem apresentar o transtorno, assim como alguém com peso considerado normal ou até baixo pode sofrer com ele.“A obesidade e o TCA são condições diferentes, embora possam coexistir”, explica o Dr. Luiz Sampaio, psiquiatra e presidente do Colégio Médico Brasileiro de Acupuntura.Segundo o especialista, predisposição genética, mecanismos neuroendócrinos, ambiente alimentar, sono, estresse, condições socioeconômicas, doenças e determinados medicamentos estão entre os diferentes fatores que podem estar envolvidos na obesidade.Isso também ajuda a desmontar a ideia de que toda ingestão alimentar de uma pessoa com obesidade deve ser interpretada como falta de controle.Fome e saciedade são reguladas por mecanismos complexos do organismo. Hormônios como grelina, leptina, GLP-1 e insulina participam desse sistema, explica o Dr. Eduardo Grecco, gastrocirurgião, endoscopista e professor de Medicina da Faculdade do ABC.A grelina está relacionada à fome. O GLP-1 participa da sinalização de saciedade e do controle da glicemia. A leptina, produzida pelo tecido adiposo, também participa da regulação energética, enquanto a insulina exerce papel fundamental no controle da glicose. Grecco destaca ainda alterações relacionadas à resistência à leptina e à insulina em pessoas com obesidade.Mas sentir fome, desejar determinado alimento ou até comer além da saciedade em uma situação ocasional não significa ter compulsão alimentar.O próprio Grecco diferencia as duas situações ao explicar que uma pessoa pode estar com fome, gostar muito de determinado alimento e decidir continuar comendo mesmo depois de se sentir saciada.“Quando a gente fala de compulsão, é perder o controle”, afirma.É justamente a perda de controle que aparece como um dos elementos centrais para entender o Transtorno de Compulsão Alimentar.Sampaio explica que um episódio de compulsão envolve a ingestão, em um período delimitado, geralmente considerado em torno de duas horas, de uma quantidade de alimentos claramente maior do que a maioria das pessoas comeria em circunstâncias semelhantes, acompanhada da sensação de perda de controle sobre o que, quanto ou como se está comendo.Isso não significa que qualquer episódio de exagero seja um transtorno.“Comer além do habitual em uma festa, em uma viagem ou em outra situação ocasional não significa, por si só, compulsão. Também é possível comer por fome, prazer ou convivência social e, eventualmente, ultrapassar a saciedade.”Nessas situações, explica o psiquiatra, permanece a capacidade de decidir, reduzir o ritmo ou interromper a ingestão.“Na compulsão, o elemento decisivo é a sensação de não conseguir controlar ou interromper o comportamento.”Um episódio isolado também não é suficiente para estabelecer o diagnóstico. Segundo Sampaio, para caracterizar o TCA, os episódios devem ser recorrentes, em geral pelo menos uma vez por semana durante três meses, causar sofrimento significativo e estar associados a pelo menos três manifestações.Entre elas estão comer muito rapidamente, comer até sentir desconforto físico, comer sem fome, comer sozinho ou escondido por constrangimento e sentir repulsa de si, tristeza ou culpa depois.A culpa, no entanto, não precisa estar presente em todos os episódios. Preocupação com o peso ou com a imagem corporal também não é requisito para o diagnóstico.E é justamente aí que outro estereótipo precisa ser derrubado: compulsão alimentar não tem um tipo de corpo.“O TCA pode ocorrer em pessoas com obesidade, sobrepeso, peso considerado normal e, menos frequentemente, baixo peso”, explica Sampaio.O diagnóstico não é definido pelo peso corporal, mas pelo padrão recorrente de compulsão, pela perda de controle e pelo sofrimento ou comprometimento provocado pelos episódios.Por isso, olhar para uma pessoa magra não permite concluir que ela não tenha um transtorno alimentar. Da mesma forma, olhar para uma pessoa com obesidade não permite concluir que ela tenha compulsão.Presumir o contrário pode ter consequências que vão muito além de uma frase inconveniente.Segundo Sampaio, associar automaticamente obesidade à compulsão reforça a ideia de falta de disciplina. Esse estigma pode produzir vergonha, discriminação, piora da autoestima e da saúde mental, comportamentos alimentares desordenados e até adiamento da procura por assistência.Quando obesidade e Transtorno de Compulsão Alimentar coexistem, entretanto, as duas condições precisam ser consideradas no tratamento.E aqui surge outro ponto importante: simplesmente impor mais restrições alimentares pode não ser a resposta.Sampaio explica que dietas muito restritivas, longos períodos de jejum e regras alimentares rígidas podem aumentar a fome, a ansiedade e o pensamento de “tudo ou nada”, favorecendo novos episódios em quem apresenta TCA. O resultado pode ser um ciclo de restrição rígida, tensão ou fome, compulsão, culpa e uma nova restrição.Isso não significa escolher entre tratar a obesidade ou tratar a compulsão.Quando as duas condições estão presentes, a abordagem deve ser integrada. Segundo o psiquiatra, frequentemente é necessário, inicialmente, regularizar a alimentação e reduzir as compulsões antes de estabelecer estratégias mais intensivas de perda de peso. As metas também devem considerar saúde metabólica, funcionalidade, qualidade de vida e relação com os alimentos, e não apenas o peso.O tratamento do TCA deve ser individualizado e, frequentemente, multiprofissional.A terapia cognitivo-comportamental específica para transtornos alimentares é a psicoterapia mais estudada e uma das intervenções de primeira linha. A psicoterapia interpessoal também apresenta evidências de eficácia.O acompanhamento nutricional especializado, por sua vez, não consiste simplesmente em prescrever uma dieta para emagrecer. O objetivo inicial costuma ser organizar refeições regulares, reduzir períodos prolongados de jejum, identificar situações desencadeantes e diminuir regras alimentares rígidas.Medicamentos também podem ser considerados em determinados casos. Sampaio cita a lisdexanfetamina, que possui indicação aprovada pela Anvisa para TCA moderado a grave em adultos, mas ressalta que se trata de um estimulante controlado que exige avaliação de contraindicações, riscos cardiovasculares, efeitos adversos e potencial de uso inadequado. Alguns antidepressivos também podem reduzir as compulsões em determinados pacientes, especialmente quando há depressão ou ansiedade associadas.O que não funciona como tratamento é transformar a doença em uma questão moral.“Dizer ao paciente que ele precisa apenas ‘se controlar’ ignora que a perda de controle é justamente o núcleo do transtorno. Além de não tratar o problema, essa abordagem aumenta culpa, vergonha e ocultação dos episódios, dificultando a procura por ajuda.”Talvez, então, a pergunta que ouvi tantas vezes estivesse errada desde o início.Não deveria ser: “Como você pode ter obesidade se não come tanto?”A pergunta que precisamos fazer é outra: por que ainda acreditamos que podemos descobrir como alguém come apenas olhando para o seu corpo?✅Para saber tudo do mundo dos famosos, siga o canal de entretenimento do R7, o portal de notícias da Record, no WhatsApp










