Matheus Leitão

De 1,35 milhão de votos em 2010 a 5.523 no Ceará. A queda de Tiririca conta como o Brasil perdeu a vontade de rir da política

Matheus Leitão
06/10/2026 06:00
Reprodução
Em 2010, um palhaço perguntou ao Brasil o que fazia um deputado federal, confessou que não sabia e pediu o voto prometendo contar depois. Um milhão, trezentas e cinquenta e três mil pessoas aceitaram a proposta. Tiririca foi o deputado mais votado do país com o bordão de que pior do que estava não ficaria.
Dezesseis anos depois, ele voltou para casa, no Ceará, e a casa respondeu com 5.523 votos. O palhaço não perdeu a graça. O país é que parece ter perdido a vontade de rir.
Francisco Everardo Oliveira Silva nasceu em Itapipoca em 1965 e vive no picadeiro desde os oito anos. Nos anos 90 viu seu pequeno circo, de nove artistas, pegar fogo no interior do Maranhão e voltou de carona para Fortaleza. Em 1996, Florentina vendeu um milhão e meio de cópias.
Na primeira eleição, o Ministério Público tentou barrá-lo por analfabetismo. Ele fez teste de leitura e foi absolvido, porque a Justiça Eleitoral só considera inelegível o analfabeto absoluto.
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A curva das urnas conta o resto. Foram 1.353.820 votos em 2010, pouco mais de um milhão em 2014, quando ainda puxou dois colegas do partido pelo quociente, 453.855 em 2018 e 71.754 em 2022, quando foi o último eleito de São Paulo.
Naquele ano ele perdeu o número 2222, fácil de decorar, para Eduardo Bolsonaro, e disse que era como transferir boa parte dos seus votos.
Em novembro de 2025 deixou o PL, entrou no PSD a convite de Domingos Neto e trocou o domicílio eleitoral para o Ceará prometendo um mandato sério, sem palhaçada. A queda desde a primeira eleição chega a 99,6%.
Na Câmara, Tiririca foi por anos o deputado mais assíduo, com 612 sessões seguidas sem falta até 2016. Fez seis discursos em dezesseis anos e não teve nenhuma lei de sua autoria sancionada. O projeto que incluía o circo na Lei Rouanet passou pela Câmara em 2017 e, segundo a BBC, acabou arquivado no Senado. Suas primeiras palavras ao microfone, depois de cinco anos de silêncio, foram o voto pelo impeachment de Dilma, que ele disse ser pelo bem do país.
Pouco depois gravou uma paródia das dedicatórias dos colegas, votando pela Florentina, pelo cachorro Lulu e pelo filho que nasceria em 2020. Votou pela investigação de Temer dizendo que quem errou tem que pagar e foi o único do PL contra a reforma da Previdência em 2019. Em dezembro de 2017 subiu à tribuna pela primeira vez para anunciar que abandonava a vida pública, decepcionado com o toma lá dá cá. Ficou mais dois mandatos. Na época afirmou também que lhe ofereceram dinheiro para votar a favor de Dilma, acusação que nunca comprovou.
O palhaço tem uma função antiga. O bobo da corte era o único autorizado a dizer verdades ao rei, desde que em tom de brincadeira, e a historiadora Beatrice Otto mostra que até Ivan, o Terrível, mantinha o seu. Mikhail Bakhtin chamou de carnavalização o instante em que o riso vira a hierarquia de cabeça para baixo e o bobo ocupa o trono. O voto em Tiririca foi esse carnaval, herdeiro do rinoceronte Cacareco, que recebeu quase 100 mil votos para vereador em São Paulo em 1959, e do macaco Tião, com 400 mil votos para prefeito do Rio em 1988.
A diferença é que os votos nos bichos eram anulados, enquanto o voto no palhaço elegia gente.
A pergunta que fica é por que esse protesto morreu. Uma hipótese é que a política se tornou mais absurda do que a sátira, e escândalo após escândalo o riso deixou de ser arma para virar cansaço.
Outra é que o eleitor indignado trocou o deboche inocente pela raiva e passou a votar em quem grita e confronta. Há também o desgaste do próprio personagem, que denunciou o sistema da tribuna e continuou dentro dele.
Nas redes, cearenses comemoraram que ali o eleitor estuda antes de votar. O pesquisador Bruno Cava, ainda em 2010, lembrava que o voto em Tiririca nunca foi só protesto e que muito da crítica a ele carregava preconceito de classe.
Seja qual for a explicação, o bordão de 2010 virou profecia às avessas. Ficou pior, e o palhaço foi o primeiro a sair de cena.

