Principais candidatos ao Senado são entrevistados pelo Terra e apresentam propostas e prioridades para um eventual mandato

Imagem: Divulgação

- Isabella Lima

- Beatriz Araujo

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22 set 2026 - 04h58

Soninha Francine (Cidadania) quer ocupar uma das cadeiras do Senado por São Paulo. Em entrevista ao Terra, ela aponta que as pessoas estão cansadas da sensação de impunidade e entende que um eventual impeachment de ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) pode ser necessário caso a própria Corte não avance na investigação de suspeitas envolvendo seus integrantes. Ela, que começou sua trajetória política no PT, agora se define como uma política de centro-esquerda que abandonou alguns “dogmas” do passado. Nisso, comenta sobre não ver a hora de Tarcísio de Freitas (Republicanos) "se emancipar do bolsonarismo" e vê necessidade de que o Senado seja menos movido a emoções e paixões.

- Essa reportagem faz parte de uma série de entrevistas do Terra com os candidatos ao Senado por São Paulo. Além de Soninha Francine (Cidadania), também foram convidados Simone Tebet (PSB), André do Prado (PP), Geraldo Rufino (Podemos), Guilherme Derrite (PP), Marina Silva (Rede), e Ricardo Salles (Novo)

Na entrevista, a candidata comenta propostas em torno do combate ao feminicídio, meio ambiente e economia. Em paralelo, se posiciona sobre temas polêmicos no Congresso Nacional como descriminalização do aborto, redução da maioridade penal, castração química e regulamentação da inteligência artificial.

Confira os principais pontos da entrevista:

Crise no STF

Em meio à crise no Supremo Tribunal Federal, Soninha afirma que o impeachment de ministros não seria a melhor solução, mas pode se tornar um caminho necessário caso a própria Corte não tome medidas diante de suspeitas que considera graves. Para ela, o STF deveria abrir uma investigação sobre ministros diante de indícios que considera suficientes.

A entrevista foi concedida no último dia 17 de setembro, após o julgamento de Alexandre de Moraes no Supremo Tribunal Federal (STF), que terminou sem uma definição sobre uma possível investigação do ministro por seu suposto elo com Daniel Vorcaro, do Banco Master.
“[Impeachment] não seria a melhor forma, mas é a forma possível caso o próprio Supremo não tome nenhuma medida. A medida que precisa ser tomada agora, de imediato, e corre o risco de não ser tomada, é aceitar a abertura de um processo, de um inquérito, de uma investigação contra pelo menos um dos ministros, contra o qual existem indícios muito sérios de relações indevidas, relações ilícitas com quem é acusado de uma série de crimes em julgamento nesse mesmo Supremo” -- Soninha Francine
Para a candidata, a discussão não deveria causar pavor. “[Se os fatos não servirem] para o Supremo concordar em abrir um inquérito, abrir uma investigação, então o impeachment é o que resta.”
A candidata diz que, se eleita, votaria pelo impeachment caso existam elementos suficientes para justificar a medida. Ao mesmo tempo, pondera que uma decisão dessa natureza pode sofrer influência política --assim como aponta que toda votação é imprevisível e que pode, sim, ocorrer um impeachment injusto.
Cadeiras do Supremo
O próximo presidente eleito poderá indicar ao menos três ministros por causa da aposentadoria compulsória de 75 anos -- o que atinge Luiz Fux, Cármen Lúcia e Gilmar Mendes. E há também a cadeira vaga de Luís Roberto Barroso, que se aposentou antecipadamente e cuja indicação de Jorge Messias por Lula foi rejeitada pelo Senado. Para Soninha, as regras atuais para a escolha dos magistrados são pouco objetivas e deveriam ser revistas.
A candidata defende critérios mais claros para as indicações, como uma idade mínima mais elevada, experiência na magistratura e a possibilidade de estabelecer um mandato com prazo definido. Ela também propõe uma espécie de quarentena para pessoas que deixam cargos no governo antes de serem indicadas ao Supremo.
“Tem uma série de critérios que a gente pode tornar mais objetivos para que a aprovação do Senado seja menos sujeita a emoções e paixões. [...] Quanto mais você objetivar, mais também vai ser fácil contestar e questionar um senador assim: ‘Mas qual foi o ponto que o senhor acha que ele não cumpriu?’ Cria mais um constrangimento também para quem vai aprovar ou não um nome indicado” -- Soninha Francine
Sobre a possibilidade de uma mulher ocupar uma das próximas cadeiras, Soninha considera possível, mas pondera que as indicações presidenciais também sofrem influência de pressões políticas e acaba passando pela questão da "pessoa de confiança".
Centro-esquerda, sem dogmas
Soninha iniciou sua carreira política no Partido dos Trabalhadores. Agora, no Cidadania, se define como uma política de centro-esquerda que revisou posições que hoje considera antigos dogmas da esquerda.
Entre elas, a candidata cita a participação da iniciativa privada na oferta de serviços à população. Ela defende políticas sociais, a redução das desigualdades e a atuação do Estado para equilibrar relações em que uma das partes esteja em desvantagem. Em paralelo, considera que empresas e organizações da sociedade civil também podem atuar nessas áreas, desde que submetidas a regras, fiscalização, metas e indicadores.
“Eu sou de centro-esquerda. O que significa que algumas coisas em que eu acreditava muito, hoje eu vejo como dogmáticas e eu acho que a gente precisa rever” -- Soninha Francine
O partido de Soninha apoia a candidatura de Tarcísio de Freitas (Republicanos) à reeleição ao governo de São Paulo --candidato próximo de Flávio Bolsonaro (PL), principal oponente de Lula (PT) na campanha eleitoral para a Presidência da República. Ao falar sobre sua posição frente à questão, a candidata faz uma análise pessoal sobre a postura de Tarcísio.
“Eu não vejo a hora do Tarcísio se emancipar do bolsonarismo. Porque, para mim, a explicação para ele continuar subindo num carro de som ao lado de Flávio Bolsonaro, pedindo voto para ele, usando boné do Maga, é que eu acredito que ele ainda se sente devedor da família Bolsonaro. Leitura minha” -- Soninha Francine
Feminicídio
São Paulo bateu o recorde de feminicídios em 2025. Segundo dados da Secretaria de Segurança Pública de São Paulo (SSP), de janeiro a dezembro foram 270 ocorrências -- o equivalente a uma mulher assassinada a cada 32 horas no Estado. O que fazer para mudar isso? Para Soninha, o enfrentamento da violência contra a mulher precisa começar antes de a agressão atingir seu estágio mais grave. Ela defende campanhas de comunicação para alertar sobre os primeiros sinais, como humilhações, ofensas, controle do celular e agressões físicas iniciais.
“Começa assim. As mulheres precisam saber: Não menospreze essas pequenas violências iniciais, porque elas vão se agravar. Então, comunicação é fundamental" -- Soninha Francine
A candidata quer a ampliação dos centros de referência da mulher, com assistentes sociais, psicólogos e advogados, e o repasse de recursos federais para o custeio desses espaços. Nos casos com medida protetiva, propõe tornozeleiras eletrônicas, centrais de monitoramento e aplicativos de emergência para tornar efetiva a distância determinada pela Justiça, além de ações como a Ronda Maria da Penha, que, segundo ela, exigem recursos para viaturas e profissionais preparados.
Redução da maioridade penal
O Congresso tem discutido sobre a redução da maioridade penal de 18 para 16 anos, e o assunto também se faz presente nas campanhas eleitorais deste ano. Para Soninha, o tema deve ser tratado como prioridade no Senado e não ser encarado apenas como uma pauta da direita, que trabalhadores e eleitores de esquerda também defendem mudanças diante de crimes graves cometidos por adolescentes.
“Eu tenho opinião firme de que, com 16 e 17 anos, um jovem não sabe menos coisa do que com 18 em relação ao que não se pode fazer em relação a outra pessoa. Se ele não sabe com 16, ele não vai saber com 17, ele não vai saber com 18, que ele não pode estuprar, que ele não pode praticar latrocínio” -- Soninha Francine
As medidas socioeducativas podem ter resultados positivos em determinados casos, mas a candidata é favorável a uma distinção para crimes graves contra a pessoa. “A gente tem que traçar uma linha. O que é que um jovem tem, sim, condição de saber e obrigação de saber? E a medida educativa que a gente vai aplicar para ele é a penalidade correspondente à gravidade do que ele fez.”
Aborto
Soninha defende a legalização do aborto, com regras e atendimento adequado às mulheres. Para ela, a proibição não impede que o procedimento seja realizado e pode aumentar os riscos para as mulheres. Por isso, defende que a interrupção aconteça em ambiente seguro, com condições de higiene e acompanhamento psicológico.
“Eu entendo que proibir não protege, não protege nem a mãe, nem o bebê. Para mim, não é fácil falar de aborto, e eu não pretendo defender o aborto, defender o direito ao aborto, mas a realidade do aborto. A gente não pode acreditar, por causa da nossa crença religiosa, familiar, que uma mulher, uma menina, uma jovem não vai fazer um aborto quando tiver a certeza de que vai interromper aquela gestação, de um jeito ou de outro” -- Soninha Francine
- Atualmente, a legislação brasileira permite a interrupção da gravidez em três situações: quando há risco de vida para a gestante, quando a gravidez é fruto de violência sexual ou estupro de vulnerável e em casos de anencefalia fetal, conforme decisão do STF. Nessas hipóteses, o atendimento deve ser oferecido pelo Sistema Único de Saúde (SUS), sem necessidade de autorização judicial ou de boletim de ocorrência. Fora dessas exceções, a interrupção voluntária da gestação é considerada crime pelo Código Penal.
Castração química
Sobre a proposta de castração química para estupradores, Soninha argumenta que já mudou de opinião algumas vezes e que atualmente não fecha a porta para a discussão. Em vez de defender ou rejeitar imediatamente a medida, ela considera necessário avaliar os resultados obtidos em países que adotaram intervenções medicamentosas semelhantes.
Para ela, a análise deveria considerar especialmente os casos de estupradores reincidentes e de crimes sexuais contra crianças, levando em conta os resultados das experiências internacionais.
Meio ambiente e fiscalização
Na área ambiental, Soninha vê a necessidade de mudanças tanto na legislação quanto na estrutura dos órgãos responsáveis pela fiscalização. A candidata reconhece que processos de licenciamento podem ser demorados, mas critica a possibilidade de ampliar mecanismos de autodeclaração para atividades de impacto ambiental significativo.
Segundo Soninha, é preciso fazer um diagnóstico das estruturas de fiscalização para identificar falta de servidores, equipamentos e veículos. A candidata também defende políticas de incentivo à recuperação de áreas degradadas, incluindo agroflorestas, recuperação de nascentes, reflorestamento e corredores de fauna.
Para ela, o governo pode utilizar investimentos diretos e linhas de crédito com juros baixos para estimular essas iniciativas. Soninha afirma ainda que São Paulo precisa investir na adaptação das cidades aos eventos climáticos extremos e diz que o "planejamento não pode ser feito apenas quando enchentes ou secas já estão acontecendo".
Inteligência artificial
Soninha quer a regulamentação da inteligência artificial e afirma que o poder público precisa acompanhar os riscos associados ao uso da tecnologia. Entre as preocupações citadas estão fraudes, produção de conteúdos falsos e o uso de ferramentas de inteligência artificial em trabalhos acadêmicos.
“Tem de ter regulamentação. Você tem as próprias Big Techs alarmadas com algumas coisas que vêm acontecendo, então você tem que regulamentar o produto. Como é que nós nos protegemos de fraudes?” -- Soninha Francine
Outro ponto levantado por Soninha é o impacto ambiental dos data centers utilizados para o funcionamento dessas tecnologias. Ela defende investimentos em sistemas de refrigeração com água em circuito fechado, para que o recurso seja reaproveitado continuamente. “A gente tem que ter cada vez mais pessoas capacitadas para trabalhar com isso”, afirma.
Dívida pública
A Dívida Bruta do Governo Geral do Brasil já ultrapassa 80% do Produto Interno Bruto (PIB) e é uma das grandes problemáticas do país, conforme apontam especialistas. Soninha afirma que uma das formas de contribuir para o controle dos gastos seria evitar a criação de novas despesas sem que exista uma fonte de recursos para sustentá-las. A candidata defende rigor na aprovação de projetos que aumentem gastos públicos. Para ela, também é necessário combater desperdícios e avaliar a eficiência de estruturas e programas do governo.
“Tem um jeito de contribuir que é não piorar, né? Recentemente, senadores aprovaram a famosa "pauta-bomba", "projetos de bondade". A gente tem que ser muito rigoroso quanto a isso, não aumentar gastos enquanto não houver a garantia de que vai ter recurso para isso”, afirma.
- Na prática, o termo “pauta-bomba” é usado para projetos do Legislativo que podem aumentar significativamente as despesas públicas ou diminuir a arrecadação. Por isso, essas medidas podem pressionar as contas do governo e, em determinados casos, entrar em conflito com as regras previstas na Lei de Responsabilidade Fiscal.
Soninha também critica despesas que considera desnecessárias e cita a quantidade de ministérios, Correios e empresas públicas deficitárias como estruturas que deveriam ser avaliadas. Para ela, combater a corrupção não basta para resolver o problema fiscal: é preciso acompanhar a eficiência dos gastos públicos. A candidata também critica o Bolsa Família e avalia que, embora o programa melhore o cotidiano dos beneficiários, não promove, por si só, a saída da pobreza.
“O Bolsa [família] não vem transformando a vida das pessoas. O Bolsa vem transformando o dia a dia das pessoas que passaram a ter um pouquinho mais de dinheiro para fazer um supermercado, mas a transformação realmente de sair da pobreza não está acontecendo” -- Soninha Francine
Prioridades no Senado
Para Soninha, sua principal bandeira no Senado será manter uma postura de responsabilidade na análise de projetos. “Eu nunca vou votar contra um projeto porque eu não gosto do autor ou porque eu sou da oposição e o projeto veio do Executivo. Eu sempre vou analisar conforme o conteúdo dele e, se for o caso, vou propor mudanças, vou propor emendas, vou propor um substitutivo."
Ela complementa que pretende ouvir pessoas com conhecimentos diferentes dos seus antes de tomar decisões, além de consultar especialistas e pessoas diretamente envolvidas com os problemas discutidos no Congresso. Segundo Soninha, a postura que pretende levar ao Senado é mais importante do que uma bandeira temática específica. “Então, é um compromisso, mais do que com temas, mas um compromisso com uma determinada postura.”


